Por: Dom Tarcísio Scaramussa, SDB, Bispo Diocesano de Santos
Ao completar 75 anos o Bispo Diocesano deve apresentar sua renúncia ao Papa. Sabedoria e misericórdia da Igreja. Sabedoria milenar, pois as mudanças e desafios do tempo exigem dinamismo e forças novas. Misericórdia por reconhecer as limitações naturais que a idade impõe a uma pessoa com o avançar dos anos. Misericórdia também por entender as necessidades sempre novas do Povo de Deus e da missão evangelizadora da Igreja em caminho. O Bispo emérito continua exercendo o ministério, com maior disponibilidade e liberdade, sem o peso da responsabilidade de governo.
Fazendo uma panorâmica dos anos vividos como Bispo de Santos, relembro alguns acontecimentos estruturantes que se destacam. O principal deles, para mim, foi a presença e atuação do pontificado do Papa Francisco, iniciado pouco antes de minha nomeação como Bispo Diocesano. Posso dizer mesmo que caminhamos em comunhão, na esteira de seu magistério e impulso para uma Igreja em saída, acolhedora, misericordiosa e missionária.
A canonização de Madre Teresa de Calcutá (2016), após a comprovação do milagre acontecido em nossa Diocese, e a canonização de Santo André de Soveral (2017), nascido em São Vicente e martirizado no Rio Grande do Norte, foram acontecimentos espirituais que continuarão a marcar sempre a realidade desta Igreja chamada a viver no dinamismo da santidade da graça de Deus presente em nossa história com sinais evidentes e testemunho.
Entre inúmeros desafios que confrontam constantemente a vida da Igreja, a pandemia certamente foi algo extraordinário que causou perdas, sofrimento, incertezas, e exigiu união de forças para superar inúmeros percalços com fé e esperança em Deus, e muita criatividade na descoberta de novos caminhos para viver a fé numa circunstância inusitada. A fé e a comunhão eclesial se manifestaram neste momento como grandes forças para sustento das pessoas enlutadas e doentes, como também para a manutenção dos serviços eclesiais e do atendimento aos mais pobres.
A celebração do jubileu centenário da Diocese foi uma graça especial, que contribuiu de forma extraordinária para retomar o vigor da vida e da missão evangelizadora da Igreja de Santos após a pandemia. Foi realmente grande oportunidade de renovação, de crescimento no amor e sentido de pertença à Igreja particular de Santos, e de aprofundamento da fé e do ardor missionário. E nos lançou com renovado ardor para a missão, lembrando o mandato de Jesus: “Lançai a rede”.
Estivemos conectados com a caminhada da Igreja no processo sinodal iniciado em 2021. Esforçamo-nos por entender e aprofundar as questões novas que se impõem como sinais dos tempos, como o aumento de pessoas na miséria e à margem da sociedade, a autorreferencialidade e o individualismo, a pluralidade religiosa, as polarizações, o crescimento da agressividade, das divisões e da tensão social, o descaso com a casa comum e a exigência da chamada economia de Francisco, o impacto das novas tecnologias e da inteligência artificial (IA), a necessidade de um pacto educativo global, a efetiva implementação do Concílio Vaticano II, a evangelização dos jovens, entre tantos outros.
Caminhamos juntos na empreitada pastoral, com a dinamização do Plano Diocesano de Evangelização, em consonância com a Evangelii Gaudium e as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE - CNBB), com a criação da Equipe de Assessoria Pastoral (EAP), com a implementação da IVC (Iniciação à Vida Cristã), com a formação e animação bíblica e litúrgica, com a criação do Vicariato para a dimensão social da evangelização, com a criação do Tribunal Eclesiástico Diocesano. Assumimos juntos o investimento na animação vocacional e na formação dos novos sacerdotes e diáconos permanentes, com equipe formativa diocesana e a referência de Diretórios específicos. Neste tempo tive a alegria de ordenar na Diocese 19 novos padres e 23 novos diáconos permanentes.
Na leitura do livro Esperança, a autobiografia, do Papa Francisco, encontrei esta citação inspiradora para o novo momento como Bispo Emérito: “Agarrados à âncora da esperança, poderemos dizer com os versos de Hikmet que ‘o mais belo dos mares é o que não navegamos; o mais belo de nossos filhos ainda não cresceu; nossos dias mais belos ainda não os vivemos; e as palavras mais belas que te queria dizer ainda não as disse’”. É um convite a ser “peregrino de esperança”, como nos convoca o Sínodo que celebramos. “No caminho, eu confio em Ti”! Vamos em frente com esperança!
“Em tudo dai graças” (1 Ts 5,18). Na iminência de receber a aceitação de minha renúncia pelo Papa Leão XIV, manifesto meu agradecimento de coração. Bendito seja Deus que me proporcionou a graça de servir como Bispo nesta Diocese de Santos, cujo centenário tive a alegria de vivenciar. Aqui fui acolhido de braços abertos pelo povo de Deus, com seu clero, religiosos(as), agentes de pastoral, irmãos e irmãs na fé, que também me sustentaram na missão. Só tenho que repetir sempre: Obrigado, obrigado, obrigado. Bendito seja Deus!

